Criado na década de 1920, museu reúne acervo macabro com o intuito de alertar jovens para o perigo das drogas e a prática de atos criminosos
Insólita! Esta é a palavra que melhor define uma visita ao inusitado Museu da Polícia Civil, instalado nas dependências da Academia de Polícia do Estado de São Paulo (Acadepol), na Cidade Universitária, zona oeste da capital paulista. Mais conhecido como Museu do Crime, o espaço reúne em seus 600 m2 cerca de três mil peças, entre fotos, objetos e documentos, que discorrem sobre drogas, armas, crimes e criminosos e proporcionam ao visitante um ambiente, um tanto quanto, sinistro.
Dividido em seções, o museu começa sua inserção ao “mundo do crime” apresentando ao visitante aquela que, há pouco mais de 200 anos, existe para combatê-lo: a polícia civil. Para tanto, utiliza-se de objetos, como uma antiga viatura de polícia, fotos e quadros afixados nas paredes, além de outros objetos que retratam a história da entidade.
Com o objetivo de atuar como um agente educador e alertar os jovens para as consequências da prática de atos criminosos e do uso de drogas ilícitas, o museu tem uma ala reservada à exposição de entorpecentes. Cocaína, craque e maconha são alguns dos tóxicos dispostos em uma redoma de vidro, acompanhadas de fichas com informações sobre os efeitos ocasionados em caso de ingestão.
Para a guia do museu Thaís Siqueira Santos, 21, mais importante que enfatizar os efeitos nocivos ocasionados à saúde pelo uso de drogas, é fundamental materializá-la para que o jovem assimile, de fato, todo mal dela advindo. “Quando um adolescente vem ao museu, a gente faz questão de lhe mostrar as drogas porque, fala-se muito no assunto, mas, quando se materializa é diferente. É a partir dessa amostragem que podemos conscientizá-lo.”, justifica-se.
Crimes e criminosos
Na segunda sala do museu os crimes hediondos marcam presença. Na parede, quadros contendo a minibiografia e o modus operandi de criminosos que cometeram delitos que abalaram a opinião pública e marcaram época. No mesmo ambiente, imagens das vítimas com seus corpos dilacerados e de seu algoz são expostas, lado a lado, de forma explícita e as suas histórias são recontadas por meio de textos e objetos utilizados na execução dos crimes.
Condenados como Francisco de Assis Pereira, mais conhecido como Maníaco do Parque, João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, Francisco Costa Rocha, vulgo Chico Picadinho e o imigrante italiano Gino Amleto Meneghetti (vide foto acima), chamado pela imprensa de “homem-gato” - devido sua destreza em andar sobre telhados sem quebrá-los e escalar muros para entrar e sair da cena de seus crimes - têm seus rostos reconstruídos em um busto.
Na mesma sala, mais ao fundo, o cenário é chocante: a reconstituição de um ambiente de abuso sexual apresenta uma ossada humana ao lado de objetos pessoais da vítima, como um pé de sapato e uma bolsa.
Segundo a curadora do museu Armenui Herbella, 68, responsável pela seleção das peças expostas, há critérios a serem consideradas ao eleger os crimes que compõem o cenário do museu. “A escolha é feita de acordo com a relevância do tema. O critério utilizado na escolha do acervo é técnico policial.”, explica.
Retratos de uma época
Durante o percurso museu adentro, Thaís relata as histórias trágicas que permeiam cada fotografia e objeto em exposição. Mas, mais que informar o visitante acerca desses crimes, suas palavras desnudam usos e costumes que retratam uma época nem tão longínqua, mas, se contextualizada à contemporaneidade, apresentam costumes já em desuso, como é o caso do conhecido “Crime da Mala”, ocorrido em 1928, quando José Pistone asfixiou até a morte a esposa Maria Fea Pistone, na ocasião grávida de seis meses, por desconfiar que ela o traía. Para livrar-se do corpo, empacotou-o numa mala e despachou-a pelo porto de Santos para um suposto Ferrero Francesco, em Bordoux, na França. Seu plano macabro teria triunfado não fosse pelo forte odor emanado da decomposição do cadáver. Preso e condenado a dez anos de reclusão, após cumprir pena, mudou-se e constituiu nova família em Taubaté, cidade do interior paulista. “Se fosse o inverso, se fosse a mulher que tivesse matado o homem, a lei teria sido muito mais severa, porque, naquela época havia uma sociedade machista. A maioria dos crimes eram passionais e, se o homem conseguisse provar que a mulher tinha cometido adultério, ele não cumpria pena”, relata a guia aos visitantes.
Outro cenário que reflete costumes antigos é a réplica de uma delegacia no início do século 20. Semelhante a um tribunal, nela, o cidadão, obrigatoriamente, guarda uma distância de mais ou menos 3 metros da autoridade de plantão. “Naquela época não existia concurso público. Por isso, quem assumia estes cargos eram pessoas de classe, que eram nomeadas. Nunca foi uma característica, no Brasil, da elite se misturar com o povão”, esclarece Thaís.
Mas, não é só da antiguidade que trata o museu. Crimes recentes também são lembrados pelo sinistro acervo.
