Movimento cultural no bairro de Piraporinha, na zona sul da cidade de São Paulo, incentiva a produção artística comunitária
Criada há 9 anos, a Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), através de ações simples, como a reunião em um bar para declamar poesias, tem revelado poetas latentes nos guetos da Capital paulista. São marceneiros, estudantes, artistas, donas de casa, aposentados, crianças, entre outros, que descobrem os versos e anversos da palavra, ora utilizada para retratar o cotidiano dessa massa plural de trovadores.
Idealizada pelo poeta Sérgio Vaz, um mecenas da arte periférica, a Cooperifa não é uma associação ou entidade cultural, por isso, não está confinada a nenhum espaço físico, faixa etária ou esfera social. É um movimento artístico que atua como elo entre arte, indivíduo e sociedade e desenvolve papel relevante na vida daqueles que a compõem. O rapper Jairo Rodrigues Barbosa, que há 6 anos frequenta o movimento, se diz modificado por ele. “Graças à Cooperifa comecei a escrever e montei meu grupo de rap. Ela mudou minha vida, abriu meus horizontes e me mostrou o quanto eu era alienado”, afirma.
Atualmente, a cooperativa desenvolve três projetos culturais junto à comunidade. O mais recente deles acontece toda primeira e terceira segunda-feira do mês: é o Cinema na Laje, fruto da percepção de Vaz da ausência de cinemas na periferia. A sala para exposição de filmes e documentários é improvisada sobre o bar de José Cláudio Rosa, o Zé Batidão. “Quando o tempo não está bom eu faço a sessão dentro do bar”, declara Zé que, além de fornecer o espaço físico para a realização do evento, faz questão de preparar o ambiente “Tem o lanterninha, Henrique, e pipoca para todo mundo”, diz satisfeito.
Outro movimento promovido pela Cooperifa é a Chuva de Livros que, embora não seja periódico, quando acontece “inunda” corações e mentes com poesia e conhecimento. O cenário, mais uma vez, é o bar do Zé Batidão. Porém, agora, o escurinho do cinema é substituído pela mistura da luz de neon das lâmpadas incandescentes à luz das palavras contidas nos mais de 600 livros doados pela Poiésis (Organização Social de Cultura), que são distribuídos gratuitamente aos presentes. Tudo com um único propósito: “viciar” novos leitores e, segundo Vaz, fazer da Cooperifa a “boca do livro da quebrada”.
O terceiro e mais popular evento da cooperativa é o “Sarau”, realizado toda quarta-feira, a partir das 20h, adivinhem onde? Na “Academia das Letras” periférica: o bar do Zé Batidão. “A Cooperifa só me trouxe coisa boa: o conhecimento, a freguesia que tenho hoje...”, afirma o dedicado Zé, “curador” das artes marginais e autor de dez poemas, ainda não declamados no sarau por falta de tempo, devido ao grande fluxo de clientes que atende no decorrer da noite.
Embora realize seus projetos nas dependências do bar de Zé Batidão, a Cooperifa transcende portas e muros, mobiliza seus cooperados e promove saraus nos mais diversos ambientes, como entidades filantrópicas, estações de metrô e a Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) de São Paulo. “A gente trabalha a poesia, a rima e as formas de composições; onde buscar a poesia e a inspiração”, esclarece Barbosa, sobre o trabalho realizado junto aos internos da Fundação.
Tanta dedicação e seriedade na difusão da arte e da literatura consolidam a Cooperifa como um movimento relevante na inclusão daqueles que, geralmente, transitam à margem quando o assunto é cultura. “A Cooperifa tem uma vantagem, ela deu certo porque não tem dinheiro. Ninguém leva nada de ninguém. É um movimento sem fins lucrativos e cada um vive do próprio trabalho”, explica Zé Batidão, para justificar o êxito do movimento.

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