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domingo, 16 de outubro de 2011

Crimes no museu


Criado na década de 1920, museu reúne acervo macabro com o intuito de alertar jovens para o perigo das drogas e a prática de atos criminosos

Insólita! Esta é a palavra que melhor define uma visita ao inusitado Museu da Polícia Civil, instalado nas dependências da Academia de Polícia do Estado de São Paulo (Acadepol), na Cidade Universitária, zona oeste da capital paulista. Mais conhecido como Museu do Crime, o espaço reúne em seus 600 m2 cerca de três mil peças, entre fotos, objetos e documentos, que discorrem sobre drogas, armas, crimes e criminosos e proporcionam ao visitante um ambiente, um tanto quanto, sinistro.
Dividido em seções, o museu começa sua inserção ao “mundo do crime” apresentando ao visitante aquela que, há pouco mais de 200 anos, existe para combatê-lo: a polícia civil. Para tanto, utiliza-se de objetos, como uma antiga viatura de polícia, fotos e quadros afixados nas paredes, além de outros objetos que retratam a história da entidade.
Com o objetivo de atuar como um agente educador e alertar os jovens para as consequências da prática de atos criminosos e do uso de drogas ilícitas, o museu tem uma ala reservada à exposição de entorpecentes. Cocaína, craque e maconha são alguns dos tóxicos dispostos em uma redoma de vidro, acompanhadas de fichas com informações sobre os efeitos ocasionados em caso de ingestão.
Para a guia do museu Thaís Siqueira Santos, 21, mais importante que enfatizar os efeitos nocivos ocasionados à saúde pelo uso de drogas, é fundamental materializá-la para que o jovem assimile, de fato, todo mal dela advindo. “Quando um adolescente vem ao museu, a gente faz questão de lhe mostrar as drogas porque, fala-se muito no assunto, mas, quando se materializa é diferente. É a partir dessa amostragem que podemos conscientizá-lo.”, justifica-se.

Crimes e criminosos


Na segunda sala do museu os crimes hediondos marcam presença. Na parede, quadros contendo a minibiografia e o modus operandi de criminosos que cometeram delitos que abalaram a opinião pública e marcaram época. No mesmo ambiente, imagens das vítimas com seus corpos dilacerados e de seu algoz são expostas, lado a lado, de forma explícita e as suas histórias são recontadas por meio de textos e objetos utilizados na execução dos crimes.
Condenados como Francisco de Assis Pereira, mais conhecido como Maníaco do Parque, João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, Francisco Costa Rocha, vulgo Chico Picadinho e o imigrante italiano Gino Amleto Meneghetti (vide foto acima), chamado pela imprensa de “homem-gato” - devido sua destreza em andar sobre telhados sem quebrá-los e escalar muros para entrar e sair da cena de seus crimes - têm seus rostos reconstruídos em um busto.
Na mesma sala, mais ao fundo, o cenário é chocante: a reconstituição de um ambiente de abuso sexual apresenta uma ossada humana ao lado de objetos pessoais da vítima, como um pé de sapato e uma bolsa.
Segundo a curadora do museu Armenui Herbella, 68, responsável pela seleção das peças expostas, há critérios a serem consideradas ao eleger os crimes que compõem o cenário do museu. “A escolha é feita de acordo com a relevância do tema. O critério utilizado na escolha do acervo é técnico policial.”, explica.

Retratos de uma época
Durante o percurso museu adentro, Thaís relata as histórias trágicas que permeiam cada fotografia e objeto em exposição. Mas, mais que informar o visitante acerca desses crimes, suas palavras desnudam usos e costumes que retratam uma época nem tão longínqua, mas, se contextualizada à contemporaneidade, apresentam costumes já em desuso, como é o caso do conhecido “Crime da Mala”, ocorrido em 1928, quando José Pistone asfixiou até a morte a esposa Maria Fea Pistone, na ocasião grávida de seis meses, por desconfiar que ela o traía. Para livrar-se do corpo, empacotou-o numa mala e despachou-a pelo porto de Santos para um suposto Ferrero Francesco, em Bordoux, na França. Seu plano macabro teria triunfado não fosse pelo forte odor emanado da decomposição do cadáver. Preso e condenado a dez anos de reclusão, após cumprir pena, mudou-se e constituiu nova família em Taubaté, cidade do interior paulista. “Se fosse o inverso, se fosse a mulher que tivesse matado o homem, a lei teria sido muito mais severa, porque, naquela época havia uma sociedade machista. A maioria dos crimes eram passionais e, se o homem conseguisse provar que a mulher tinha cometido adultério, ele não cumpria pena”, relata a guia aos visitantes.
Outro cenário que reflete costumes antigos é a réplica de uma delegacia no início do século 20. Semelhante a um tribunal, nela, o cidadão, obrigatoriamente, guarda uma distância de mais ou menos 3 metros da autoridade de plantão. “Naquela época não existia concurso público. Por isso, quem assumia estes cargos eram pessoas de classe, que eram nomeadas. Nunca foi uma característica, no Brasil, da elite se misturar com o povão”, esclarece Thaís.
Mas, não é só da antiguidade que trata o museu. Crimes recentes também são lembrados pelo sinistro acervo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Incentivo que vem das arquibancadas

Criadas para representar os torcedores e ser porta-voz junto à diretoria dos clubes de futebol, as torcidas organizadas têm presença constante nos estádios e, dentro desse reduto, por meio de músicas que são verdadeiras declarações de amor, fazem o que sabem melhor: incentivam o seu time de coração.
Entoadas da geral às numeradas, essas canções surgem em rodas de amigos nos bares, na euforia dos ônibus a caminho do jogo ou até mesmo nas arquibancadas no decorrer da partida. "Um toca e o outro acompanha", explica o vice-presidente da torcida são-paulina Independente Genildo da Silva. "Geralmente, o pessoal pega o ritmo de uma música já existente e vai desenrolando”, acrescenta o palmeirense Cristian Araújo.
Embora a maior parte das letras surjam em coletividade, há quem escreva sozinho, como Mauro Cesar Dilai, mais conhecido como Mauro Pirata. Acostumado a compor sambas-enredo, Pirata, que é palmeirense fanático, já compôs mais de 15 músicas para o verdão. "Eu entro no meu quarto, pego o meu cavaquinho e escrevo".
Todo torcedor pode dar sua contribuição. Basta criar uma música e entregar em uma das sedes das torcidas organizadas. Porém, nem todas as letras caem nas graças da galera. O segredo do sucesso, segundo Pirata, é fazer músicas curtas. "Têm umas que não rolam nas arquibancadas por serem extensas. Elas precisam ser curtas, além de passar sentimento para a torcida", esclarece.
Apesar de refletir alegria e explanar o amor do torcedor pelo clube, nem sempre as músicas são feitas num momento bom para o time. Exemplo disso é a canção "Louco por ti Corinthians", que caiu nas graças da fiel no final de 2007 - ano em que o Corinthians foi rebaixado para a série B do Campeonato Brasileiro. "O Corinthians vinha em uma fase ruim. Um rapaz levantou um cartaz escrito 'eu nunca vou te abandonar porque eu te amo'. Daí a gente entrou com a melodia", explica o tesoureiro da Gaviões da Fiel, Claudemir Antônio Teixeira.
Sobre os direitos autorais e a comercialização das músicas, os torcedores respondem em uníssono: não pretendem obter lucro. "Acho que a torcida do Corinthians não nos perdoaria se ganhássemos dinheiro em cima da paixão do torcedor", afirma Teixeira. Pirata vai ainda mais fundo: "A música é como filho, a gente cria para o mundo". (Texto publicado no jornal "Expressão", da Universidade São Judas Tadeu, em maio de 2010)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Jardim Botânico de São Paulo agrega lazer e educação ambiental



Inserido no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (PEFI), a 10 km do centro da cidade de São Paulo, o Jardim Botânico paulista foi criado com o objetivo de coibir a degradação ambiental na região. Com uma área de 526 hectares, dos quais 345 são ocupados por vegetação remanescente da Mata Atlântica e cerca de 36 hectares destinam-se à visitação, o parque proporciona a seus visitantes lazer e entretenimento de forma a despertá-los para a importância da preservação do meio ambiente.
Integrado a terceira maior reserva de mata nativa do município, o parque possui 24 nascentes de água e dois aquíferos – formações geológicas que armazenam águas subterrâneas. As plantas passam das 27 mil espécies, sendo que, 20 tipos delas, como por exemplo, as bromélias, foram resgatadas da extinção. Há ainda palmeiras de quase um século, orquidário, túnel de bambu e uma réplica do Jardim Botânico de Lineu – jardim de inspiração renascentista, localizado na Universidade de Uppsala, na Suécia.
O Jardim conta também com um Museu Botânico idealizado por Frederico Carlos Hoehne – botânico autodidata e um dos primeiros especialistas em orquídeas no Brasil – e reúne em seus 150 m2 um conjunto de aproximadamente 1,3 mil espécies de plantas secas e herborizadas, acompanhadas de rótulo com informações para pesquisa, dispostas de acordo com seu ecossistema que variam entre mata atlântica, cerrado, mata ciliar, manguezal e vegetação litorânea.
Para os “aventureiros”, o local oferece duas trilhas. Uma, em terra firme, é circundada pela mata nativa de ponta a ponta. Outra, suspensa, percorre uma reserva da Mata Atlântica e leva o visitante à nascente do córrego Pirarungáua, um dos afluentes do Riacho do Ipiranga, palco da independência do Brasil. A estudante de fotografia Luciana Cardoso, diz estar surpresa com a presença de uma nascente em plena metrópole. “Lá em Minas, onde eu fui criada, tem tudo isso, mas, aqui em São Paulo, eu nunca tinha visto. Achei interessante, porque tem gente que não conhece”, justifica-se a mineira.
A fauna também tem lugar nas dependências do Jardim e alguns animais fazem do espaço seu habitat natural. Há mamíferos como o Bicho-Preguiça e o Bugio-Ruivo – espécie de primata nativo do Rio Grande do Sul – que ocupam as altas copas das árvores, além de mais de uma centena de pássaros que coabitam no parque. Nos lagos, peixes e patos passeiam sem se importarem com os “intrusos” visitantes.
Apesar dos ares de parque convencional, o diretor do Centro de Pesquisa do Jardim Botânico e Reserva Luiz Mauro Barboza, faz questão de enfatizar. “Os Jardins Botânicos se diferenciam dos parques por uma razão: eles têm a missão de conservar a biodiversidade e educar o cidadão”, explica. Neste contexto, não é permitido andar de bicicleta, patins e afins, em suas dependências.
Segundo Barboza, por se tratar de um jardim, a melhor ocasião para visitar o local é durante a primavera, em especial, nos meses de novembro e dezembro, quando a flora é tomada pelas flores e seus respectivos perfumes, mas, faz uma ressalva: “A qualquer momento o Jardim é muito bonito. Por isso, é sempre bom visitá-lo”.

(Matéria publicada no jornal laboratório Expressão, da Universidade São Judas Tadeu, em dezembro/2010)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sabor milenar

Com cardápio nutritivo e saudável, comida japonesa firma-se no cenário gastronômico paulista

Irashaimase! (Seja bem-vindo!) Provavelmente, essa será a saudação que você ouvirá ao ser recebido em um restaurante tradicional e especializado na gastronomia japonesa. Já bastante popular por aqui, esta cozinha vem, a cada dia, conquistando mais e mais adeptos em todo o país.

Formado por ilhas e constituído de terras montanhosas, não é difícil concluir porque o Japão retira do mar, e não da agricultura, a maior parte de seus alimentos, já que, geograficamente, são poucos os locais onde é possível o cultivo da lavoura. O resultado disso é uma alimentação nutritiva e natural.

Considerada uma culinária saudável por ser rica em proteínas e minerais como cálcio, fósforo e ferro, tem como principais ingredientes arroz, peixes, moluscos, algas, legumes, soja - também utilizada nos temperos mais comuns como o shoyu (molho de soja) e o missô (pasta de soja), e, mais recentemente, frutas.

Outro ponto favorável ao consumo da comida japonesa é o fato de seus componentes possuírem pouca gordura e baixo colesterol. “A comida japonesa, se comparada à comida brasileira, por exemplo, além de ter um tempero menos ‘carregado’, ela é quase ausente de gordura”, afirma o nissei e sushiman Marcelo Maeda, 37, dono de um Sushi Bar e Restaurante na Mooca.

A salubridade não é a única responsável pelo crescimento do consumo das iguarias nipônicas. Seu sabor peculiar e incomparável, acompanhado de sua excentricidade em pratos como o biscoito feito com vespas, faz dessa culinária uma parte ímpar da gastronomia mundial.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cooperativa leva arte e cultura à periferia

Movimento cultural no bairro de Piraporinha, na zona sul da cidade de São Paulo, incentiva a produção artística comunitária

Criada há 9 anos, a Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), através de ações simples, como a reunião em um bar para declamar poesias, tem revelado poetas latentes nos guetos da Capital paulista. São marceneiros, estudantes, artistas, donas de casa, aposentados, crianças, entre outros, que descobrem os versos e anversos da palavra, ora utilizada para retratar o cotidiano dessa massa plural de trovadores.
Idealizada pelo poeta Sérgio Vaz, um mecenas da arte periférica, a Cooperifa não é uma associação ou entidade cultural, por isso, não está confinada a nenhum espaço físico, faixa etária ou esfera social. É um movimento artístico que atua como elo entre arte, indivíduo e sociedade e desenvolve papel relevante na vida daqueles que a compõem. O rapper Jairo Rodrigues Barbosa, que há 6 anos frequenta o movimento, se diz modificado por ele. “Graças à Cooperifa comecei a escrever e montei meu grupo de rap. Ela mudou minha vida, abriu meus horizontes e me mostrou o quanto eu era alienado”, afirma.
Atualmente, a cooperativa desenvolve três projetos culturais junto à comunidade. O mais recente deles acontece toda primeira e terceira segunda-feira do mês: é o Cinema na Laje, fruto da percepção de Vaz da ausência de cinemas na periferia. A sala para exposição de filmes e documentários é improvisada sobre o bar de José Cláudio Rosa, o Zé Batidão. “Quando o tempo não está bom eu faço a sessão dentro do bar”, declara Zé que, além de fornecer o espaço físico para a realização do evento, faz questão de preparar o ambiente “Tem o lanterninha, Henrique, e pipoca para todo mundo”, diz satisfeito.
Outro movimento promovido pela Cooperifa é a Chuva de Livros que, embora não seja periódico, quando acontece “inunda” corações e mentes com poesia e conhecimento. O cenário, mais uma vez, é o bar do Zé Batidão. Porém, agora, o escurinho do cinema é substituído pela mistura da luz de neon das lâmpadas incandescentes à luz das palavras contidas nos mais de 600 livros doados pela Poiésis (Organização Social de Cultura), que são distribuídos gratuitamente aos presentes. Tudo com um único propósito: “viciar” novos leitores e, segundo Vaz, fazer da Cooperifa a “boca do livro da quebrada”.
O terceiro e mais popular evento da cooperativa é o “Sarau”, realizado toda quarta-feira, a partir das 20h, adivinhem onde? Na “Academia das Letras” periférica: o bar do Zé Batidão. “A Cooperifa só me trouxe coisa boa: o conhecimento, a freguesia que tenho hoje...”, afirma o dedicado Zé, “curador” das artes marginais e autor de dez poemas, ainda não declamados no sarau por falta de tempo, devido ao grande fluxo de clientes que atende no decorrer da noite.
Embora realize seus projetos nas dependências do bar de Zé Batidão, a Cooperifa transcende portas e muros, mobiliza seus cooperados e promove saraus nos mais diversos ambientes, como entidades filantrópicas, estações de metrô e a Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) de São Paulo. “A gente trabalha a poesia, a rima e as formas de composições; onde buscar a poesia e a inspiração”, esclarece Barbosa, sobre o trabalho realizado junto aos internos da Fundação.
Tanta dedicação e seriedade na difusão da arte e da literatura consolidam a Cooperifa como um movimento relevante na inclusão daqueles que, geralmente, transitam à margem quando o assunto é cultura. “A Cooperifa tem uma vantagem, ela deu certo porque não tem dinheiro. Ninguém leva nada de ninguém. É um movimento sem fins lucrativos e cada um vive do próprio trabalho”, explica Zé Batidão, para justificar o êxito do movimento.